Rei Filósofo

Platão – A República – Grécia entre 380 e 370 a.C.

O Rei-Filósofo é uma das ideias centrais da República, mas Platão não está apenas dizendo que “um homem sábio deveria ser rei”. Sua tese é mais profunda.

O poder político deve ser unido ao conhecimento verdadeiro do Bem.

Enquanto os governantes não se tornarem filósofos — ou os filósofos não assumirem efetivamente o governo — as cidades não estarão livres de seus males. Essa formulação aparece no Livro V (Enciclopédia de Filosofia de Stanford).

O que Platão entende por “filósofo”

Para Platão, filósofo não é simplesmente alguém culto, intelectual ou eloquente. É aquele que ama a verdade, e não apenas opiniões; busca aquilo que é permanente, universal e inteligível; consegue distinguir aparência e realidade; conhece a natureza da justiça, da beleza e do bem; governar suas próprias paixões antes de governar os outros.

O filósofo contempla as Formas ou Ideias, isto é, as realidades universais e imutáveis das quais as coisas sensíveis são manifestações imperfeitas. O verdadeiro filósofo não se limita a reconhecer atos particulares considerados justos; procura compreender o que é a Justiça em si.

Portanto, o Rei-Filósofo é menos um “rei intelectual” e mais alguém cuja alma foi ordenada pelo conhecimento da verdade.

I. Aspectos sociológicos do Rei Filósofo

1. A sociedade como organismo funcional.

Platão concebe a cidade como uma estrutura composta por grupos com funções diferentes:

1. produtores — agricultores, artesãos, comerciantes;

2. guardiões auxiliares — responsáveis pela defesa;

3. governantes — escolhidos entre os melhores guardiões.

A justiça social surge quando cada parte exerce adequadamente sua função, sem tentar ocupar o lugar das demais. A cidade justa é, portanto, uma cidade ordenada pela especialização e pela harmonia.

Não se trata de igualdade social no sentido moderno. Platão defende uma sociedade hierarquizada, fundada na diferença de aptidões e disposições da alma.

2. A divisão social corresponde à divisão da alma.

A estrutura da cidade reproduz a estrutura do indivíduo.

O Rei-Filósofo representa a razão governando a cidade, da mesma forma que, no indivíduo justo, a razão deve governar os impulsos e desejos. Assim, a teoria política platônica é também uma psicologia social: uma sociedade desordenada é a projeção coletiva de almas desordenadas.

3. Crítica à democracia ateniense.

Platão desconfia da democracia porque ela tende a tratar como equivalentes opiniões que não possuem o mesmo valor racional. Para ele, governar exige uma competência específica, assim como navegar, curar ou construir.

A analogia implícita é esta: ninguém escolheria o piloto de um navio por popularidade; deveria escolher quem conhece a arte da navegação. Da mesma forma, a cidade não deveria ser governada simplesmente por quem conquista a maioria, mas por quem compreende a justiça e o bem comum.

Sua crítica não se dirige apenas ao voto. Ela se dirige à transformação da política em:

● disputa retórica;

● busca de popularidade;

● manipulação das massas;

● satisfação imediata dos desejos;

● competição por prestígio e poder.

Nesse sentido, o Rei-Filósofo é uma resposta à crise da autoridade política: Platão tenta substituir a autoridade baseada em riqueza, hereditariedade, força ou popularidade por uma autoridade fundamentada no conhecimento.

4. Educação como seleção da elite governante

O governante não nasce pronto. Sua formação exige um processo longo, que envolve:

● educação física e musical;

● matemática;

● geometria;

● astronomia;

● dialética;

● experiência militar e administrativa;

● observação constante do caráter.

A formação culminaria por volta dos cinquenta anos, quando os candidatos mais capazes alcançariam a compreensão do Bem e passariam a alternar contemplação filosófica e serviço político. (Plato)

Portanto, a elite platônica não deveria ser apenas uma aristocracia de nascimento, mas uma aristocracia da alma e da formação — ainda que o modelo seja claramente hierárquico e pouco compatível com a democracia moderna.

5. Supressão dos interesses privados dos governantes

Platão considera que o poder se corrompe quando é usado para enriquecimento, prestígio pessoal ou favorecimento familiar. Por isso, os guardiões superiores não deveriam possuir riqueza privada significativa nem organizar a vida política em torno da transmissão familiar do poder.

6. Governo como obrigação, não como ambição.

Um dos aspectos mais importantes da concepção platônica é que o verdadeiro filósofo não deseja o poder pelo poder. Ele preferia dedicar-se à contemplação da verdade, mas aceita governar por dever. Platão considera isso uma proteção contra a tirania: os melhores governantes seriam precisamente aqueles que não tratam o cargo como objeto de desejo pessoal.

Daí o paradoxo: quem deseja intensamente governar talvez seja justamente quem menos deveria governar.

II. Aspectos filosóficos do Rei Filósofo

1. O problema entre conhecimento e opinião

A política comum funciona no domínio da doxa, na opinião. As pessoas julgam conforme:

● costumes;

● interesses;

● emoções;

● aparências;

● discursos persuasivos;

● conveniências momentâneas.

O filósofo procura alcançar o episteme, o conhecimento verdadeiro. Para Platão, uma cidade governada apenas pela opinião pode escolher caminhos populares, porém destrutivo.

2. A política como ciência ou arte do governo

O governante deve possuir conhecimento sobre o objeto de sua atividade. Assim como a medicina tem como finalidade a saúde do paciente, a política deveria ter como finalidade o bem dos governados.

O poder não é, portanto, uma propriedade pessoal do governante. É uma função orientada para o benefício da comunidade. Essa interpretação é coerente com a insistência socrática de que a verdadeira arte de governar deve beneficiar aqueles que são governados.

3. A unidade entre ética e política

Na República, ética e política não são campos separados. A pergunta “o que é uma cidade justa?” é inseparável da pergunta “o que é uma alma justa?”. Platão constrói a cidade ideal, em parte, para tornar a justiça mais visível em escala ampliada.

O Rei-Filósofo é a união entre: conhecimento; virtude; autocontrole; responsabilidade pública.

Ele não é legitimado somente porque sabe mais, mas porque seu conhecimento transformou seu caráter.

4. A virtude como condição do poder

Platão não aceita a ideia de que competência técnica seja suficiente. Um governante pode ser inteligente e, ainda assim, usar sua inteligência para dominar, enriquecer ou manipular.

Por isso, o filósofo deve reunir qualidades como:

● amor à verdade;

● memória;

● coragem;

● moderação;

● estabilidade;

● aversão à mentira;

● indiferença relativa ao dinheiro;

● capacidade de considerar o todo.

A inteligência sem virtude pode produzir um tirano mais eficiente. O Rei-Filósofo precisa combinar excelência intelectual e excelência moral.

5. A dialética como formação do governante

A dialética é o método mais elevado de investigação filosófica. Ela permite que o pensamento ultrapasse hipóteses provisórias e procure os primeiros princípios.

O futuro governante deve saber examinar criticamente:

● conceitos;

● pressupostos;

● contradições;

● relações entre as partes e o todo;

● consequências de uma decisão.

A dialética impede que ele seja prisioneiro de slogans, convenções ou opiniões herdadas. Na Linha Dividida, Platão distingue graus de realidade e de conhecimento, desde imagens e crenças até o entendimento racional das Formas.

6. O filósofo deve retornar à caverna

Na Alegoria da Caverna, o filósofo é aquele que se liberta das sombras, contempla o mundo exterior e finalmente vê a luz do sol. Mas ele não recebe autorização para permanecer fora da caverna. Deve retornar e participar do governo. Esse retorno representa o fundamento ético do Rei-Filósofo – o conhecimento cria uma obrigação para com a comunidade.

A filosofia não pode ser apenas salvação individual ou contemplação privada. Quem alcançou maior compreensão deve assumir responsabilidade pelos que continuam presos às aparências.

III. Aspectos metafísicos do Rei Filósofo

1. A distinção entre mundo sensível e mundo inteligível

A ideia do Rei-Filósofo depende da metafísica platônica. Platão distingue dois níveis fundamentais:

Mundo sensível, o mundo percebido pelos sentidos:

● mutável;

● imperfeito;

● múltiplo;

● sujeito ao nascimento e à destruição;

● acessível principalmente pela opinião.

Mundo inteligível, é o domínio das Formas:

● eterno;

● universal;

● estável;

● acessível à razão;

● fundamento da inteligibilidade das coisas.

O governante comum ocupa-se apenas de situações mutáveis. O filósofo procura compreender os princípios permanentes que permitem julgar essas situações.

2. A Forma do Bem

No ápice da realidade inteligível encontra-se a Forma do Bem. O Bem não é apenas uma regra moral. Ele é o princípio que torna possível:

● conhecer a verdade;

● reconhecer a justiça;

● ordenar corretamente a vida;

● compreender a finalidade das coisas;

● distinguir bens aparentes de bens verdadeiros.

Na Analogia do Sol, o Bem desempenha no mundo inteligível uma função semelhante à do Sol no mundo visível: assim como o Sol torna os objetos visíveis, o Bem torna as realidades inteligíveis e o conhecimento possível. A exposição aparece no Livro VI, associada posteriormente à Linha Dividida.

O Rei-Filósofo governa bem porque orienta a cidade por esse Princípio Superior, ligado ao Logos, o ponto Primordial, o ponto de Partida, a divina emanação de criação do universo – Deus.

3. Conhecer o Bem é conhecer a medida da política

Sem a ideia do Bem, o governante pode conhecer meios, mas não fins. Não há propósitos e valores elevados.

Ele pode saber:

● mobilizar recursos;

● organizar exércitos;

● persuadir cidadãos;

● aumentar a produção;

● controlar instituições.

Mas continuará sem saber para qual finalidade esses instrumentos devem ser utilizados.

A metafísica fornece, portanto, o critério de elevação da política. O conhecimento do Bem, do Karma, da responsabilidade de liderar pela evolução da Obra do Eterno na face da Terra permite perguntar:

Produzir mais para quê?

Vencer uma guerra para quê?

Acumular riqueza para quê?

Preservar o Estado para realizar qual forma de vida?

4. Ordem cósmica, ordem psíquica e ordem política

Em Platão, existe uma correspondência entre três níveis:

● ordem do ser — a hierarquia das realidades;

● ordem da alma — a razão governando paixões e desejos;

● ordem da cidade — os sábios governando o conjunto social.

O Rei-Filósofo é o ponto de ligação entre essas ordens. Ele contempla racionalmente a estrutura do real, ordena sua própria alma de acordo com essa verdade e procura imprimir uma ordem semelhante às instituições da cidade.

Assim, a política platônica possui uma dimensão quase cosmológica: governar justamente é alinhar a cidade com uma Ordem (Dharma) objetiva do ser.

5. A ascensão e a descida

O percurso do filósofo possui dois movimentos:

Ascensão – o filósofo abandona progressivamente:

● imagens;

● aparências;

● crenças não examinadas;

● opiniões coletivas;

● interesses particulares.

E ascende em direção:

● ao raciocínio;

● à dialética;

● às Formas;

● ao Bem.

Descida – após contemplar o Bem, ele retorna ao mundo político:

● às decisões concretas;

● aos conflitos;

● às instituições;

● às imperfeições humanas;

● à administração da cidade.

O Rei-Filósofo não é apenas o homem que sobe. É aquele que sobe e retorna.

Sem ascensão, o político permanece preso às sombras.

Sem retorno, o filósofo abandona a comunidade.

IV. A síntese da ideia do Rei Filosófico

Podemos resumir a construção platônica da seguinte maneira:

Sociologicamente – A sociedade deve ser organizada segundo funções e governada por uma elite selecionada por capacidade, formação e caráter, não por riqueza ou popularidade.

Filosoficamente – O governo justo exige conhecimento verdadeiro, virtude moral, domínio de si e compreensão racional do bem comum.

Metafisicamente – A política só pode ser corretamente orientada quando o governante conhece uma realidade superior às opiniões e aos interesses passageiros: a Forma do Bem.

O Rei-Filósofo não é simplesmente um déspota esclarecido. É importante fazer essa distinção.

O Rei-Filósofo não deveria governar porque possui força, carisma ou uma suposta superioridade pessoal. Ele governa porque:

● conhece melhor a finalidade da vida coletiva;

● controla seus próprios desejos;

● não busca enriquecimento;

● não deseja o poder como satisfação pessoal;

● orienta suas decisões pelo bem dos governados;

● aceita o governo como dever.

V. A afirmação mais profunda de Platão

A tese do Rei-Filósofo pode ser entendida não apenas como uma proposta constitucional, mas como uma crítica permanente à política. Uma sociedade entra em decadência quando aqueles que conhecem não querem governar e aqueles que querem governar não procuram conhecer.

Platão identifica uma cisão entre: saber e poder; verdade e opinião; virtude e ambição; interesse comum e interesse particular.

O Rei-Filósofo representa a tentativa de reconciliar essas dimensões.

No fundo, sua pergunta continua atual: Quem deveria governar – quem deseja o poder, quem conquista a maioria, quem possui riqueza, quem domina a retórica ou quem compreende melhor o Bem da comunidade?

A resposta de Platão é radical: somente aquele que aprendeu a governar a si mesmo, libertou-se das aparências e compreendeu o Bem, estaria legitimado a governar os demais.