Teosofia, Alquimia, Cabala

Fohat não é propriamente um conceito tradicional do hinduísmo ou do budismo histórico. O termo foi sistematizado sobretudo pela Teosofia de Helena Blavatsky, que o apresentou como uma força cósmica inteligente, mediadora entre a ideia divina e a manifestação material. Em A Doutrina Secreta, Fohat é descrito como “eletricidade cósmica”, princípio vitalizador e agente da evolução cósmica. (Sociedade Teosófica)
Uma diferença essencial entre Fohat e Kundalini.
Não convém tratá-los simplesmente como duas palavras para a mesma energia.
Fohat é predominantemente cósmico; descendente e expansivo; organizador da manifestação; mediador entre pensamento divino e matéria; comparável a uma eletricidade cósmica inteligente.
Kundalini é predominantemente microcósmica, embora seja expressão de uma Shakti cósmica; latente no indivíduo; ascendente no processo espiritual; transformadora da consciência; associada à reintegração com a fonte (Logos).
Correspondência central entre escolas de mistérios:

Essa é, na avaliação de Maat – A Jornada do Conhecimento, a sinergia do termo Fohat e Kundalini nas três escolas de mistérios: teosofia, alquimia e cabala. Mas essas correspondências podem ser refinadas.
1. Fohat na Alquimia ocidental
Correspondência mais próxima: Spiritus Mundi. O Spiritus Mundi, “Espírito do Mundo”, é a força sutil universal que penetra, anima e conecta a natureza. Na linguagem alquímica, ele é frequentemente concebido como um espírito celeste ou mercurial que desce, impregna a matéria e possibilita as transformações. Essa função se aproxima muito de Fohat porque ambos são: intermediários entre o espiritual e o material; agentes de movimento e transformação; princípios que vivificam a matéria; veículos de uma inteligência ou ordem superior.
Fohat seria, portanto, uma espécie de Spiritus Mundi em atividade, isto é, não apenas a substância espiritual presente no cosmos, mas a força que a conduz, diferencia e organiza.
Correspondência complementar: Mercurius. O Mercúrio alquímico não é simplesmente o mercúrio metálico. Ele é o princípio móvel, volátil, mediador e transformador que une os opostos: espírito e matéria; céu e terra; fixo e volátil; masculino e feminino.
Por isso, Fohat também pode ser relacionado ao Mercurius universalis, especialmente quando entendido como o agente que transporta a intenção ou forma espiritual até a matéria. Spiritus Mundi é o campo ou substância espiritual universal; Mercurius é o seu agente móvel; Fohat reúne, em certa medida, as duas funções.
Correspondência parcial: Anima Mundi. A Anima Mundi, Alma do Mundo, é o princípio que faz do cosmos um organismo vivo. Ela é mais próxima da vida ou alma universal em si, enquanto Fohat é mais dinâmico: é a energia que movimenta, articula e eletrifica essa vida.
Anima Mundi = alma viva do cosmos;
Spiritus Mundi = espírito ou influxo que permeia o cosmos;
Fohat = poder ativo que movimenta e organiza a manifestação cósmica.
2. Fohat na Cabala judaica
Na Cabala, não existe um único conceito que concentre todas as funções atribuídas a Fohat. A correspondência precisa ser composta por três ideias.
Shefa — o influxo divino
Shefa significa fluxo, abundância ou influxo. É a corrente de vitalidade e bênção que procede dos níveis superiores e se transmite através das Sefirot até os mundos inferiores. Essa é provavelmente a melhor correspondência funcional para Fohat. Fohat é a força transmissora; Shefa é o fluxo transmitido.
Na literatura cabalística, as Sefirot funcionam como modalidades, gradações ou canais pelos quais o divino se manifesta e se relaciona com o mundo finito.
Ohr — a Luz divina
Ohr, “luz”, é a metáfora cabalística fundamental para a presença, consciência ou influência divina.
Podemos estabelecer: Ohr Ein Sof = luz infinita, anterior à manifestação limitada; Shefa = essa influência enquanto fluxo; Sefirot = estruturas ou modalidades que recebem, qualificam e transmitem o fluxo; Fohat = princípio dinâmico que faz a luz atravessar os diferentes planos.
Fohat, portanto, não seria exatamente o Ohr, mas o poder operativo da luz. As Sefirot como estrutura organizadora.

A Cabala representa a manifestação por meio das dez Sefirot, entendidas como emanações ou modalidades divinas que estruturam o cosmos. Nesse esquema, Fohat poderia ser compreendido simbolicamente como a corrente inteligente que percorre as Sefirot, convertendo vontade, sabedoria e forma em manifestação.
Em linguagem cabalística ocidental posterior, alguém poderia associá-lo ao “relâmpago” descendente da Árvore da Vida. Entretanto, essa representação pertence mais claramente à Cabala hermética (esotérica) ocidental do que à Cabala judaica clássica.
3. Kundalini na Alquimia ocidental
Kundalini é tradicionalmente entendida como uma potência divina ou Shakti latente, simbolizada como uma serpente enrolada na base do corpo. Quando desperta, ela sobe pelo eixo central e produz transformação da consciência. Sua correspondência alquímica mais próxima não é simplesmente o Mercúrio universal, mas o Fogo Secreto, o ignis secretus, fogo secreto, é a força oculta que inicia e sustenta a Obra alquímica.
Ele não é necessariamente o fogo físico do forno. É o calor interior, sutil e transformador capaz de dissolver formas antigas; purificar a matéria; separar o sutil do grosseiro; reunir os princípios separados; amadurecer a Pedra Filosofal.
Essa função corresponde muito bem à Kundalini enquanto força latente que, despertada, transforma gradualmente o ser.
Kundalini é o Fogo Secreto aplicado ao microcosmo humano. Mercúrio filosófico interior. Kundalini também possui características mercuriais: é móvel; percorre níveis; une pólos; dissolve e reconstitui; conduz a consciência entre o inferior e o superior.
Assim, na linguagem alquímica, ela poderia ser chamada de Mercúrio dos Sábios em estado latente, despertado pelo fogo da Obra. A serpente mercurial. A imagem da serpente reforça a aproximação. Na Alquimia, a serpente podesimbolizar: matéria primordial; energia circular da natureza; dissolução e regeneração; união dos opostos; força mercurial.

O ouroboros, serpente que morde a própria cauda, é mais cósmico e circular do que a Kundalini ascendente. Mesmo assim, ambos compartilham a ideia de uma potência que se transforma e retorna à unidade.

4. Kundalini na Cabala judaica
Aqui a equivalência é mais delicada. A Cabala judaica tradicional não desenvolveu um sistema idêntico aos chakras e à subida de uma serpente pela coluna.
Podemos associar com Shekhinah em Malkhut. A Shekhinah é a presença divina imanente, associada na Cabala a Malkhut, a última Sefirá, situada simbolicamente no limite entre o mundo divino e a realidade manifestada. Aliteratura cabalística também lhe atribui uma dimensão feminina. A analogia com Kundalini aparece porque ambas representam: potência divina presente no plano inferior; aspecto feminino do sagrado; presença divina aparentemente oculta ou limitada; possibilidade de elevação e reunificação; passagem da imanência à união com o
princípio superior.
Em termos simbólicos, Kundalini adormecida em Muladhara corresponde à Shekhinah presente em Malkhut.
E o despertar da Kundalini poderia ser comparado à elevação ou reunificação da Shekhinah com Tiferet, ou, em uma leitura mais ampla, à restauração da unidade entre os níveis inferiores e superiores da Árvore. Yesod como centro transmissor. Yesod, “Fundamento”, também entra na correspondência. Na Cabala, Yesod recebe e reúne as influências das Sefirot superiores e as transmite a Malkhut. Também possui associações com geração, sexualidade, ligação e potência vital.
Uma leitura possível seria: Malkhut/Shekhinah = energia divina imanente ou potência receptiva; Yesod = canal vital e gerador; Tiferet = centro de harmonização e união; Keter = coroa ou culminação superior.
A ascensão da Kundalini poderia então ser simbolicamente representada como um movimento:
Malkhut → Yesod → Tiferet → Keter.
Isso se parece muito com a subida do eixo central, mas essa formulação é mais característica da Cabala hermética e comparativa do que da prática mística judaica clássica

